Thursday, June 12, 2008

({}) Bem-vindos ao Vblog

O Vblog nasce no contexto de um exercício de faculdade. De Técnicas de Redação em Relações Públicas à vagina, como podem ver é só um passo. Comunicação, Relações, Públicas, são termos que nos remetem ao universo do gênero feminino, mas sobre isso terão de ler num outro trabalho...

Decidi bloggar sobre vaginas quando descobri, nas minhas incursões internéticas, que não estão disponíveis traduções dos Monólogos da Vagina de Eve Ensler em português. Na realidade descobri pouca coisa sobre vaginas em português, na net. Salvo no universo da pornografia, que não é o nosso foco.

Resolvi propor-me para traduzir excertos da peça. Tal como nos Monólogos, para alem de falar de vaginas sem pudor, sem preconceitos e com uma boa dose de humor, aproveito para falar de assuntos como direitos humanos das mulheres, violência, aborto, estupro...

Os primeiros 5 posts fazem parte do exercício e podem ser lidos na ordem inversa, este sendo o ultimo, mas na realidade o 1º do bloco.

Assim começamos com três excertos dos Monólogos da Vagina:

“se a minha vagina falasse...”

“estou preocupada com vaginas”

"a minha vagina esta zangada"

Ainda falamos da interrupção voluntária da gravidez no Brasil e em Portugal e em seguida postamos na integra texto produzido pelo CFEMEA sobre o panorama atual no Brasil.

Espero que este blog escape das minhas mãos e se torne um projeto comunitário. Para isso convido @s amig@s da vagina a participarem.

I hope that this blog will escape my hands and will become a communitarian Project I invite vagina friendly woman and man to participate.

se a minha vagina falasse...

Se a minha vagina falasse...

Se a minha vagina falasse, falaria de si como eu.

Falaria de outras vaginas fabulosas.

Faria imitações de outras vaginas.

A minha vagina ajudou a trazer ao mundo um bebe gigante.

Pensou que iria fazer mais do mesmo. Mas não vai.

Agora quer viajar.

Não quer muita companhia

Quer ler e saber coisas.

Ela quer sair mais.

Ela quer sexo.

Ela ama sexo.

Ela quer ir mais fundo.

Ela é sedenta por profundidade.

Ela quer bondade. Ela quer mudança.

Ela quer silencio e liberdade e beijos suaves e líquidos quentes e toque profundo.

Ela quer chocolate.

Ela quer gritar. Ela quer parar de estar zangada!

Ela quer gozar.

Ela quer querer.

Ela quer.

A minha vagina, bem ela quer tudo!

Excerto dos Monólogos da Vagina de Eve Ensler, em inglês no original; tradução e adaptação livre para português por EB

Estou preocupada com vaginas...- I

Eu estava preocupada com vaginas. Estava preocupada com o que pensamos sobre vaginas, e ainda mais preocupada de não pensarmos nelas.

Eu estava preocupada com a minha própria vagina. Ela precisava de um contexto, de uma cultura, da comunidade de outras vaginas.

Há tanta escuridão e segredo envoltos nelas: como o triangulo de bermudas, não existem relatórios vindos de lá...

Em primeiro lugar, não é fácil encontrar a sua própria vagina. Mulheres passam dias, semanas, meses sem olhar para ela. (...)

Decidi falar com mulheres sobre as suas vaginas começaram por ser entrevistas casuais e acabaram por se transformar nos Monólogos da Vagina. Falei com mais de duzentas mulheres: novas, velhas, casadas, solteiras, lésbicas, gestoras, professoras, atrizes, negras, brancas, asiáticas, judias, latinas, caucasianas...

No início as mulheres ficavam envergonhadas, relutantes em falar. Mas uma vez que começaram, ninguém as conseguia parar.

As mulheres amam falar sobre as suas vaginas!

Sobretudo porque ninguém lhes tinha pedido antes.

Excerto dos Monólogos da Vagina de Eve Ensler, em inglês no original; tradução e adaptação livre para português por EB

Estou preocupada com vaginas...- II

Vamos começar pela palavra vagina.

Na melhor das hipóteses, parece uma infecção. Ou talvez um instrumento médico. (Depressa enfermeira, passe me uma vagina...)

VAGINA, VAGINA, VAGINA. Não interessa quantas vezes pronunciamos a palavra, nunca soa como uma palavra que queremos dizer.

É uma palavra completamente ridícula. E nada sexy. Se a usas durante o sexo, tentando ser politicamente correta; querid@, podes, por favor, tocar na minha vagina... matas o ato logo ali!

Eu estou preocupada com vaginas. Estou preocupada com o que as chamamos ou deixamos de chamar. No Brasil também a chamam de passarinha. Uma mulher contou-me que a mãe lhe dizia: não vistas roupa interior por baixo do pijama, precisas de arejar a tua passarinha.

Em Portugal chamam-na cona e no Brasil boceta, bucetinha, bucetasso, bucetão e bucéfula. Em português chamam-na de: prencheca, vagina, xana, perseguida, xereca, perereca, pombinha, putz, xoxotinha, abençoada, acolhedora, chana chavasca, checheca, chimbica, xoroca, cocota, fornicada, fruto proibido, furustreca, gulosinha, jóia, katchanga, lábios de fêmea, melequinha. Chamam-na miséria, racha, receptora, repartida, sapeca, toca encantada, travesseirinho, trevo, triângulo, troço, valiosa, xabasca xampola, xaninha, xebreca, xexeca, xotinha e xumbrega.

Estou preocupada com vaginas...

Excerto dos Monólogos da Vagina de Eve Ensler, em inglês no original; tradução e adaptação livre para português por EB

A minha vagina esta zangada! - I

A minha vagina esta zangada!

Está sim!

Está furiosa!

E precisa de falar!

Precisa de falar sobre esta merda toda.

Precisa de falar com você!

Quero dizer, que negócio é esse?

Um exército de pessoas, por aí, pensando em maneiras de torturar a minha pobre, gentil, amorosa vagina.

Passando os seus dias construindo produtos loucos e idéias nefastas para depreciar minha buceta.

Vagina “motherfuckers”.

Todas estas merdas que tentam constantemente enfiar para dentro de nós.

Enfiar, encher, limpar, fazer com que desapareça.

Bem, a minha vagina não vai desaparecer. Esta furiosa e vai ficar exatamente aqui.

Vamos começar com tampax. Que raio é isso? Um pedaço de algodão comprimido e seco enfiado lá para dentro.

Porque não encontram um modo de lubrificar o tampax. Quando a minha vagina vê um, entra em choque. Fecha-se. Diz: “esquece isso”.

Você tem que trabalhar com a vagina, apresentá-la às coisas, preparar o caminho. Isso são os preliminares.

Você tem de convencer minha vagina, seduzir minha vagina, conquistar a sua confiança.

E não pode fazer isso com uma merda de um pedaço de algodão comprimido e seco. (...)

Parem de enfiar coisas na minha vagina e parem de tentar limpá-la.

A minha vagina não precisa ser limpa.

Não tente decorar.

Não acredite nele quando lhe diz que é suposto cheirar como pétalas de rosas quando é suposto cheirar como buceta.

É isso que tentam fazer, você sabe, tentam limpá-la, fazer com que cheire como um spray perfumado para banheiros ou como um jardim.

Todos aqueles cheiros: floral, frutos vermelhos, chuva. Eu não quero que a minha buceta cheire que nem chuva. Toda limpa.

Como um lavar um peixe depois de cozinhado. Eu quero sentir o sabor do peixe. Por isso o pedi.

Excerto dos Monólogos da Vagina de Eve Ensler, em inglês no original; tradução e adaptação livre para português por EB

A minha vagina esta zangada! - II

E depois, os exames... quem pensou nesses exames?

Sei que deve haver um modo melhor de fazer esses exames.

Por quê o assustador vestido de papel, que arranha os seios e range enquanto se deita, e que nos faz sentir como um papel que alguém acabou de deitar no lixo?

Por quê das estranhas luvas de borracha?

Por quê a lanterna apontado lá para o fundo como um detetive trabalhando contra a gravidade.

Por quê os estribos nazis de metal? E o especulo frio que enfiam para dentro de você? O que é isso?

A minha vagina fica furiosa com estas visitas. Fica na defensiva com semanas de antecedência. Recusa se a sair de casa.

Aí, chegando - lá (não adoras quando te dizem isso?): “relaxe a sua vagina, não fuja, vá, relaxe a sua vagina”. Por quê? A minha vagina não é estúpida, ela sabe que vai enfiar nela um especulo frio. Não me parece!

A sala já esta demasiado fria ou quente, esta lá sentada, com as pernas abertas... é horrível.

Não suporto esse especulo, ou lá como lhe chamam. E depois perguntam ”dói quando aperto aqui?”. Claro, você esta apertando a minha vagina. Não é uma sensação agradável.

Porque não me envolvem em um delicioso veludo, púrpura; deitam sobre uma suave coberta de algodão; põem umas luvas simpáticas, azuis ou rosa, e descansam meus pés em suportes felpudos.

Aqueçam o especulo! Trabalhem com a minha vagina!

Mas não, mais tortura. Algodão prensado seco, especulos frios e fio dental.

Essa merda é o pior. Move se o tempo todo. Enfia-se na sua bunda.

É suposto as vaginas serem soltas e amplas. Não contidas.

Nós precisamos nos mover, alastrar, falar. Precisamos falar.

As vaginas precisam falar...

Porque não fazem algo confortável? As vaginas precisam de conforto. Porque não fazem algo que lhes dê prazer? Claro que não querem isso.

Eles odeiam quando mulheres sentem prazer. Sobretudo prazer sexual.

Quer dizer, façam um par de calcinhas de algodão com um vibrador embutido. É isso mesmo, isso mesmo. As mulheres andariam por ai gozando o dia todo. Gozando no supermercado, gozando no metrô, vaginas felizes gozando. Eles não poderiam suportar, todas estas vaginas felizes, energizadas, sem aceitar merdas, andando pelas ruas.

Excerto dos Monólogos da Vagina de Eve Ensler, em inglês no original; tradução e adaptação livre para português por EB

Aborto- Brasil & Portugal

Só em Fevereiro de 2006, o SIM vence no referendo português sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez.

A questão da legalização do aborto nas primeiras dez semanas da gravidez já tinha sido tema de um anterior referendo em Portugal.

Tal como em 1998, a abstenção foi grande refletindo a dificuldade de posicionamento da maioria dos portugueses que perante a complexidade do assunto.

O total dos votos não reuniu os 50% de participação necessária para tornar o referendo vinculativo. Embora 59,25% dos eleitores tenham votado sim, a sociedade portuguesa, profundamente católica, continua dividida.

José Sócrates, Primeiro Ministro e Presidente do Partido Socialista, assim como outros representantes da vida política portuguesa declararam publicamente que “os resultados do referendo deverão ser respeitados pela Assembléia da República”.

A posição do governo vai de encontro às diretrizes do Parlamento Europeu que em 2002 adotou o relatório “Lancker” aconselhando “o aborto legal, seguro e acessível, apelando aos países para que não perseguissem mulheres que tivessem feito um aborto ilegal”.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, os países da América Latina ainda enfrentam legislações punitivas que colocam na ilegalidade a interrupção voluntária da gravidez.

A legislação brasileira é a das mais restritivas da América Latina, tal como a portuguesa era a das mais restritivas da Comunidade Européia. Só permite a interrupção voluntária da gravidez legal em caso de estupro ou risco de saúde para a mulher. Mesmo nesses casos a lei é raramente cumprida.

Soraya Fleischer, Antropóloga e Kauara Rodrigues - Cientista política, ambas assessoras técnicas do Centro Feminista de Estudos e Assessoria são as autoras de um excelente texto publicado no correio brasiliense em 28/5/2008, intitulado “Aborto: tapar o sol com a peneira?” que traça um esboço pertinente sobre o atual panorama no Brasil.

Aborto: tapar o sol com a peneira?

Segue artigo publicado no jornal Correio Braziliense em 28/5/2008

Aborto: tapar o sol com a peneira?


Soraya Fleischer - Antropóloga e assessora técnica do Centro Feminista de Estudos e Assessoria
Kauara Rodrigues - Cientista política e assessora técnica do Centro Feminista de Estudos e Assessoria

O dia 28 de maio foi a data escolhida para lembrar a realidade nefasta da mortalidade materna e lutar para que esses índices caiam. Mortalidade materna, conceito aprimorado por vários governos, pesquisadores e organismos internacionais, é definida como sendo o óbito de uma mulher durante a gestação ou dentro de um período de 42 dias após a gestação, independentemente da duração ou da localização da gravidez, devido a qualquer causa relacionada ou agravada pela condição gestacional ou ainda por medidas relativas a essa, porém não devida a causas acidentais ou incidentais.

O Brasil, infelizmente, ainda está entre os países com persistentes índices de mortalidade materna. A cada 100 mil bebés nascidos vivos, quase 80 brasileiras falecem, segundo o Ministério da Saúde; isto é, num cálculo rápido, se nascem cerca de 3,240 milhões bebés por ano no Brasil, morrem cerca de 2.592 mulheres em razão da gravidez ou do parto - número ainda subestimado dada a subnotificação. É um nível alto demais, sobretudo se já há suficiente acúmulo científico para prever e impedir mortes de natureza obstétrica. Não se pode tolerar que mais mulheres pereçam de mortes evitáveis.

Além de transtornos hipertensivos e hemorrágicos, uma das causas mais significativas dessas mortes são as conseqüências de abortos inseguros: sem higiene, atendimento profissional adequado ou cuidados profiláticos posteriores. No Brasil, complicações decorridas desses procedimentos são a terceira maior responsável pelas mortes maternas.

A data ganha sentido atual com um caso recentemente noticiado pela imprensa. Quase 10 mil mulheres de Mato Grosso do Sul poderiam ser processadas porque fizeram abortos numa clínica de planejamento familiar, entre 1999 e 2000. A prática é tida como crime (exceto no caso de gravidez resultante de estupro e risco de vida materna) desde o Código Penal de 1940. Dessas, quase 3 mil correm o risco de serem indiciadas de fato. Ao que parece, o juiz corre com os processos para evitar que os casos prescrevam. A pressa e envergadura do caso cheiram a uma "limpeza moral" às custas das mulheres - um exemplo típico de violência de gênero.

Cientes do viés criminoso do ato, as mulheres só nele incorreram porque carregavam justificativas pessoais e legítimas. Não se vêem como criminosas. Diante de gestações inviáveis, arriscadas, ilegítimas, indesejadas, procuraram, como última alternativa, uma clínica que discretamente oferecia o serviço.

Se não tivessem recorrido ao serviço, é provável que muitas tivessem optado por técnicas menos seguras e engrossado as estatísticas nacionais de mortalidade materna. Não é nosso intuito aqui defender a clínica, mesmo porque, oferecendo serviço ilegal, tampouco há garantia de que seguisse os protocolos obstétricos e sanitários. Mesmo atendidas, podem ter resultado muitas seqüelas pós-abortos. E o próprio estado do Mato Grosso do Sul não oferece serviços de atendimento ao aborto legal, previstos em lei. Ainda assim, essas mulheres avaliaram que o risco das seqüelas seria menor na clínica do que diante das alternativas caseiras e amadoras. A própria vida pesou mais do que a ilegalidade do ato abortivo. As seqüelas e a morte são a faceta derradeira das práticas clandestinas. Antes, há solidão, silêncio, intromissão do marido e da família, imperícia técnica, impunidade profissional.

Esse caso mostra que proibir o aborto não evita sua realização nem tampouco previne as mortes maternas. Só tapa o sol com a peneira e talvez aplaque dilemas morais vividos por parcela da população, inclusive dos parlamentares que supostamente nos representam no Congresso Nacional. Logo depois que o caso de Mato Grosso do Sul explodiu, um grupo de 33 deputados - majoritariamente homens - ignorou a complexidade desse indiciamento em massa e decidiu votar contra o Projeto de Lei 1.135, que descriminaliza a prática do aborto.

O grupo de parlamentares fechou os olhos para a realidade dramática que as 10 mil sul-mato-grossenses vivem, bem como tantas outras brasileiras. A decisão ignorou os dados de pesquisa, as orientações do Ministério da Saúde e as mais progressistas resoluções tomadas em outros países. Rejeitar o mérito do Projeto de Lei 1.135 na Comissão de Seguridade Social e Família foi um passo anacrônico que, de forma simplória e irresponsável, fecha os olhos para o que acontece diariamente no país.

Manter a ilegalidade do aborto é chancelar toda a rede clandestina de atendentes, medicamentos e procedimentos que o viabilizam. Manter tamanho tabu é restringir as opções das mulheres e dos casais que não desejam levar uma gravidez até o fim. Manter esse crime é condenar as mulheres a pagarem com suas vidas e a justificarem a existência teimosa do dia 28 de maio.